Muito se fala que vivemos dias nos quais pessoas perdem a fé religiosa a cada segundo que passa. Porém, talvez essa previsão não seja o traço principal da era dos bytes e das redes sociais.

Alguns indicadores, entretanto, apontam que não é a fé religiosa que decai; tudo indica que o que vai morro baixo em nosso dias é certo tipo de fé religiosa. E afirmo isso a partir do fenômeno de bilheteria que tem sido os filmes da Marvel, pois são entretenimento voltados para a massa e que vêm com forte conteúdo religioso e simbólico. Os dois já exibidos do Capitão América, por exemplo, tocam nos temas pouco explorados nas grandes mídias como Ocultismo e a chamada Nova Ordem Mundial. Isso para não explorar o deus Thor e a sugestão de pentagrama gravado no escudo do capitão.

Contudo, penso que nenhum dos filmes da Marvel superou, no quesito religião, “Os Vingadores – a Era de Ultron” . A opinião geral é que o centro de gravidade do filme é inteligência artificial, seus limites e fronteiras. O que vi, porém, de mais importante em “Os Vingadores 2”, vou assim nominá-lo, foi o colossal apelo à linguagem religiosa e apocalíptica.

O malvado Ultron claramente se apresenta como o Messias bíblico forte e poderoso, nos moldes que a profecia hebraica predissera. Ele se auto denomina Salvador mais de uma vez na película.

É tudo? Infelizmente, não.

Na boca do herói Visão, com seu olho-losango na fronte, é posta ousada afirmação. Enuncia Visão:

“- EU SOU”.

Essa expressão é a resposta do Altíssimo a Moisés no famoso episódio da Sarça ardente no capítulo três do livro de Êxodo. Moisés pergunta à Voz/Sarça no nome de que deus ele falará perante o rei do Egito. E a Voz/Sarça responde a Moisés:

“- EU SOU”.

Na tradição bíblica, tal expresão só pode ser atribuída ao Eterno, porque, a rigor, só Ele é; as outras criaturas tem o Ser por empréstimo. Luiz Felipe Pondé explica isso bem no excelente livro “Os dez mandamentos (+um)”:

“Há uma relação estreita entre os conceitos de graça e de chomer porque ambos falam de uma condição de falta que ‘irrita’ o homem caído: a graça implica que nós nada fizemos para receber o que temos, pois tudo é dádiva; chomer implica que não temos a posse do Ser, apenas o usufruto porque Deus é o verdadeiro dono.”(p. 52)

Para o espectador atento, a linguagem usada em “Vingadores 2” é pesada, porque se vale das duas figuras mais importantes da religião bíblica, o Eterno e o Messias. Mas não o faz de qualquer maneira: banaliza-as, tira-as do contexto sagrado e as traz para o universo pop em uso estranho e inadequado.

Por apenas esse indicador, penso que, por agora, a tendência do mundo não é secularismo ateu mas sim secularismo envolto em religiosidade. E isso pode ser visto, sem sombra alguma, no caso patente de ”Os Vingadores – a Era de Ultron”.

 

Por Pr. Marcos Paulo

 

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