A violenta e brutal autocracia de Vladimir Putin

Vladimir Putin é um ditador que está no poder há mais de vinte anos

Vladimir Putin descrito pela mídia como um “presidente” heroico, aguerrido e determinado jamais é retratado por aquilo que realmente é: um tirano sanguinário, autoritário e inflexível, cuja obsessão pelo poder não conhece limites.

Pretensiosamente descrito pela mídia mainstream como “presidente” da Rússia, Vladimir Putin é um ditador que está no poder há mais de vinte anos. Como se isso fosse pouco, ele pretende permanecer como o líder máximo do seu país até 2036. Há alguns meses, ele solicitou mudanças na constituição, que autorizam a sua permanência como dirigente máximo da nação por mais de uma década. Isso, no entanto, pode não acontecer, dado que recentemente Vladimir Putin afirmou que pode renunciar à política no início do próximo ano, em virtude de problemas de saúde.

O que muitas pessoas de fora do espetáculo político não perceberam, no entanto, é que o indivíduo em questão é um ditador pernicioso, sinistro e calculista, que não apenas não tolera críticas ou oposição, mas deixa um sangrento rastro de cadáveres por onde passa. Tudo em nome do poder incontestável e absoluto.

A carreira política de Vladimir Putin — como em qualquer autocracia — só foi possível porque ele fez os contatos e as conexões corretas. Com o esquema clássico de trocas de favores, subornos, negócios ilícitos, interesses escusos e, evidentemente, muita corrupção, Vladimir Putin trilhou um caminho político nefasto, que tinha como objetivo primordial a consolidação do poder total.

Vladimir Vladimirovich Putin nasceu em 7 de outubro de 1952, em Leningrado — atual São Petersburgo — nos últimos estertores da ditadura stalinista. Em 1975, ele ingressou na KGB, onde iria aprender tudo o que sabe sobre espionagem e contrainteligência, lá permanecendo por mais de quinze anos; eventualmente, Putin trilharia uma carreira de formidável competência e distinção no serviço secreto. Quando a União Soviética entrou em colapso, em 1991, Putin pediu demissão, por julgar que o serviço secreto do qual fazia parte apunhalara o então presidente Mikhail Gorbachev, rebelando-se indevidamente contra a sua administração. Neste período, com ambições de uma carreira a nível federal, Putin trocou Leningrado por Moscou e ingressou no serviço público da capital como líder do Comitê de Assuntos Externos, trabalhando na prefeitura.

A partir desse momento, com os contatos corretos e as conexões apropriadas, a ascensão de Vladimir Putin entre a aristocracia política da Rússia aconteceu com relativa rapidez. Este fato ocorreu primariamente porque Putin — através de um serviço exemplar discreto e efetivo — caiu nas graças da máfia dos oligarcas, o consórcio de organizações criminosas que controla todos os negócios públicos e privados da Federação Russa. O fato de ter sido apadrinhado por Mikhail Gorbachev também abriu algumas relevantes janelas de oportunidades para o ambicioso político em ascensão.

Em 1999 — após cair nas graças do então presidente Boris Yeltsin — Putin tornou-se primeiro ministro da Federação Russa. No ano seguinte, ele renunciou ao cargo para tornar-se efetivamente presidente. Essa súbita ascensão ao poder presidencial, no entanto, foi tão inesperada quanto oportuna. A máfia dos oligarcas pretendia dar início à guerra da Chechênia o mais rápido possível, e, para isso, precisava substituir urgentemente Boris Yeltsin, então visto como um velho fraco e condescendente, por alguém mais aguerrido e dinâmico, que tivesse plenas capacidades para levar adiante todos os objetivos políticos do Kremlin. Vladimir Putin, nessa delicada conjuntura, caiu como uma luva. Era o jogador certo para a posição, e ascendia em uma etapa crítica; naquele momento, vinte e quatro governadores de diversas regiões da Rússia exigiam que Boris Yeltsin renunciasse, e transferisse todos os poderes do estado para o primeiro ministro Vladimir Putin, empossando-o como presidente. Isso aconteceu porque estavam desesperados para deflagrar a guerra da Chechênia.

A presidência de Vladimir Putin começou oficialmente no dia 7 de maio do ano 2000. Seu mandato, no entanto, iniciou de forma terrivelmente leviana, com sua administração ocupada em ocultar escândalos de corrupção que envolviam tanto ele quanto Boris Yeltsin. Uma das primeiras medidas que Putin tomou foi elaborar um decreto presidencial que dava imunidade total tanto a ele quanto aos membros de sua família. Se alguém fosse surpreendido envolvido em negócios ilícitos, não seria acusado de corrupção. Ou seja, como presidente, uma de suas prioridades era ter licença permanente para envolver-se à vontade no mundo do crime, sem se preocupar com as consequências.

A partir de então, Putin trabalharia de forma efetiva para consolidar o seu poder, tornando-se mais despótico e ditatorial com o passar do tempo. Como a Rússia é uma democracia guiada — descrição politicamente correta para autocracia —, criou-se a necessidade de iludir o mundo exterior com uma majestosa aparência de participação popular e civilidade. Por essa razão, a ditadura do Kremlin fez questão desde o princípio do novo regime de manter uma fachada de democracia liberal; para isso, era necessário que houvesse uma suposta alternância de indivíduos no poder. Portanto, Putin passou a revezar o cargo periodicamente com Dmitry Medvedev, outro fantoche da máfia dos oligarcas, que se move pelos complexos labirintos da política russa com a desfaçatez de uma víbora.

Começando sua carreira política como primeiro ministro em 1999, Putin atuou como presidente de 2000 a 2008. De 2008 a 2012, Dmitry Medvedev serviu como presidente; nesse período de quatro anos, Vladimir Putin voltou a atuar como primeiro ministro. A partir de 2012, Putin assumiu novamente o cargo de presidente, posição que ocupa até o presente momento, e cujas mudanças constitucionais recentes provavelmente estenderão o seu mandato até 2036. De 2012 a 2020, Dmitry Medvedev atuou como primeiro ministro. Desde janeiro desse ano, Dmitry Medvedev serve como Vice-Presidente do Conselho de Segurança da Rússia.

As nomenclaturas, no entanto, pouco importam; não passam de meras formalidades vazias. À despeito do suposto revezamento de cargos, o verdadeiro chefe de estado, desde o ano 2000, sempre foi Vladimir Putin, que trabalha primariamente para estender a base de poder da máfia dos oligarcas — sua permanência no poder depende disso —, e para isso, ele busca eliminar sistematicamente todos aqueles que ousam se opor ao seu sórdido e tirânico regime de governo, onde predominam a cleptocracia, o despotismo, a obsessão pelo poder, a impunidade, a violência e a corrupção em todos os níveis. Ainda que seja frequentemente louvado pela mídia ocidental como um líder fascinante, eficiente, dinâmico e popular, é necessário entender que isso não passa de pura propaganda política. É fachada para enganar os incautos e os desavisados, que não investigam devidamente — e nem poderiam, caso contrário não permaneceriam vivos por muito tempo — toda a podridão nefasta, bem como a extensa trilha de cadáveres que começa no Kremlin, e se estende por toda a vastidão da Federação Russa.

Apesar do seu jeito discreto quando está em público, não podemos deixar que as aparências nos enganem. Vladimir Putin é um ditador colérico, hostil e autoritário, que não tolera qualquer crítica ou oposição. Eliminar quem ousa falar mal dele e do seu governo é uma atividade que ele executa com dedicação letal, de forma corriqueira. A maioria das pessoas não percebe isso porque os tabloides internacionais não dão o devido destaque aos atentados e aos assassinatos executados contra os opositores de Vladimir Putin, seja por covardia, pura demagogia, displicência profissional ou porque são incapazes de conectá-los apropriadamente ao ditador russo. Segue abaixo alguns exemplos de fervorosos críticos de Vladimir Putin e do seu governo, que foram assassinados em circunstâncias inadvertidamente sombrias e misteriosas.

Sergei Yushenkov foi um político liberal russo, que foi sumariamente assassinado em 17 de abril de 2003. Aparentemente, Yushenkov havia acumulado evidências de que o serviço secreto russo — então sob o comando de Vladimir Putin — estava por trás das explosões contra quatro blocos de apartamentos nas cidades de Moscou, Volgodonsk e Buynask, que ocorreram em 1999. Os atentados foram responsáveis por mais de trezentos e sessenta mortes. Eles teriam sido orquestrados deliberadamente pelo serviço secreto, por solicitação do governo, com o objetivo de gerar capital político para justificar a invasão da Chechênia. O assassinato de Yushenkov, portanto, teria sido queima de arquivo, realizado com o objetivo de evitar que a verdade se tornasse conhecida, o que provocaria um escândalo político de proporções titânicas, que colocaria em jogo a balança de poder do Kremlin.

Alguns meses depois, em 3 de julho de 2003, o jornalista investigativo russo Yuri Shchekochikhin — especialista em casos de corrupção governamental — morreu misteriosamente, depois de passar mal. Sua morte aconteceu alguns dias antes dele viajar para os Estados Unidos, onde ele iria se reunir com agentes do FBI. A causa de sua morte permanece desconhecida, embora os sintomas descritos forneçam indícios incontestáveis de que Shchekochikhin tenha sido envenenado, sendo esta uma prática comum de assassinato aplicada pelo governo russo para eliminar inimigos, detratores, indivíduos indesejados, jornalistas inconvenientes e opositores políticos. Depois que o jornalista morreu, todos os documentos, registros e laudos médicos concernentes à sua morte foram sumariamente destruídos por agentes do governo russo.

Em 24 de setembro de 2004, o magnata e homem de negócios Roman Tsepov morreu depois de quase duas semanas de uma angustiante enfermidade. Embora nunca tenha sido efetivamente comprovado, os debilitantes sintomas que ele sofreu antes de sua morte agonizante sugerem que ele tenha sido envenenado. No dia 11, ele tomou chá com agentes do serviço secreto russo, e pouco tempo depois, começou a passar mal. Tsepov fora confidente de Putin quando este trabalhava na prefeitura de São Petersburgo. Antes de ser assassinado, Tsepov sofreu no mínimo cinco atentados contra a sua vida. Acredita-se que ele tenha sido eliminado para manter em segredo determinadas transações ilícitas que ocorreram entre ele e Vladimir Putin. Tsepov traficava armas e drogas, e no tempo em que trabalhou na prefeitura de São Petersburgo, Putin teria tentado extorqui-lo, com o objetivo de conceder licenças de jogo em troca de suborno.

Em 7 de outubro de 2006, a renomada jornalista Anna Politkovskaya foi brutalmente assassinada no elevador do prédio onde morava. Politkovskaya conquistou notoriedade ao cobrir a guerra da Chechênia, e relatar as atrocidades e os crimes de guerra perpetrados pelas autoridades militares do governo federal russo contra civis. Em 2004, ela publicou um livro intitulado A Rússia de Putin, onde acusava o ditador russo de ser o líder máximo de um brutal e violento estado policial.

Sempre aguerrida, audaciosa e destemida, Anna Politkovskaya não hesitava em confrontar seus inimigos e denunciar injustiças. Em 2004, ela sofreu uma tentativa de assassinato, ao ser envenenada quando estava a caminho da cidade de Beslan, para cobrir um incidente em uma escola, onde terroristas chechenos fizeram mais de mil e cem reféns, sendo a maioria crianças. Politkovskaya teve que regressar para ser internada e tratada. Infelizmente, o evento — que acabou gerando enorme repercussão internacional — terminou em uma grande tragédia, com trezentos e trinta e quatro mortos, e setecentos e oitenta e três feridos.

Uma curiosidade muito interessante sobre a morte de Anna Politkovskaya vem do fato de que ela foi assassinada no dia 7 de outubro, data de nascimento de Vladimir Putin. A jornalista foi assassinada justamente no dia em que o ditador russo completou cinquenta e quatro anos de idade. Inúmeros jornalistas e analistas políticos suspeitam que Politkovskaya tenha sido assassinada por aliados de Putin, como um presente de aniversário para o ditador. Em 2014, cinco homens foram presos e indiciados pelo assassinato, mas até hoje não se sabe quem de fato encomendou a morte da jornalista.

Existem fortes suspeitas de que o atual presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, tenha sido o mandante do crime. Apesar de ter se tornado presidente da Chechênia somente em fevereiro de 2007 — ou seja, alguns meses depois do assassinato de Anna Politkovskaya —, Kadyrov já era um conhecido integrante da política regional chechena. Seu pai, Akhmad Kadyrov, assassinado em 9 de maio de 2004 por militantes chechenos, também atuou como presidente da Chechênia.

É possível que Ramzan Kadyrov tenha orquestrado o assassinato de Anna Politkovskaya para cair nas graças de Vladimir Putin, a quem Kadyrov busca constantemente agradar. Ramzan Kadyrov é bem conhecido por suas políticas autoritárias que violam sistematicamente os direitos humanos dos cidadãos da Chechênia, que ocorrem a níveis tão severamente desenfreados, que atualmente são classificados por algumas organizações internacionais como crimes contra a humanidade.

É bem provável que Ramzan Kadyrov se sentisse incomodado com a exposição internacional das matérias jornalísticas de Anna Politkovskaya sobre as brutalidades e os crimes de guerra que ocorriam na Chechênia, sentindo-se compelido a eliminá-la. Fazendo isso, além de livrar-se de alguém que, para ele, representava um problema considerável, ao mesmo tempo, o político checheno estaria fazendo um favor ao seu padrinho político, Vladimir Putin, caindo ainda mais em suas graças. Dificilmente alguém como Kadyrov desperdiçaria essa oportunidade.

Em 23 de novembro de 2006 — pouco mais de um mês depois do assassinato da jornalista Anna Politkovskaya —, Alexander Litvinenko, um ex-integrante do serviço secreto russo, morreu em um hospital em Londres, depois de uma dolorosa agonia, que se estendeu por quase três semanas. Litvinenko faleceu em decorrência de envenenamento por material radioativo, polônio-210, que ele aparentemente ingeriu, depois de tomar chá com dois agentes do serviço secreto russo.

No início da década de 1990, Litvinenko começou sua carreira no serviço secreto. Em questão de pouco tempo, ele descobriu que diversos departamentos de estado tinham conexões profundas com o crime organizado. Determinado a desbaratar a intrincada rede de corrupção que emergiu das suas investigações, Litvinenko relatou aos seus superiores tudo o que havia descoberto.

Logo ele percebeu, para seu desgosto, que estes indivíduos também eram corruptos e faziam parte dos esquemas ilícitos; depois de compreender a extensão da influência do crime organizado em praticamente todos os departamentos governamentais da Rússia, Litvinenko percebeu que todo o sistema estava invariavelmente corrompido. Não havia absolutamente ninguém a quem recorrer ou em quem ele poderia confiar.

Em 1998, juntamente com outros colegas, Litvinenko afirmou ter evidências de que seus superiores haviam ordenado que o magnata russo Boris Berezovsky fosse assassinado. Depois de ter sido preso e solto duas vezes, sob falsas acusações, em outubro de 2000 — temendo pela sua vida —, Litvinenko fugiu da Rússia com a sua família, estabelecendo-se na Inglaterra.

No Reino Unido, ele escreveu dois livros, onde narrava em detalhes os sórdidos e deploráveis esquemas de corrupção que havia descoberto enquanto trabalhou para o serviço secreto russo. Seis anos depois, ele caiu nas garras dos seus inimigos. Litvinenko aparentemente foi envenenado no dia 1º de novembro de 2006, ao tomar chá em um encontro com dois agentes do serviço de inteligência russo, Andrei Lugovoy e Dmitry Kovtun. Algumas horas depois da reunião, Litvinenko começou a passar mal; no dia 3, ele foi internado em estado grave. Ele morreu vinte dias depois — após enfrentar um doloroso e excruciante sofrimento — aos quarenta e três anos de idade. Em 2015, Andrei Lugovoy foi agraciado com uma honraria durante uma cerimônia por prestar “serviços a pátria”, sendo pessoalmente condecorado por Vladimir Putin.

Em 19 de janeiro de 2009, o advogado e ativista Stanislav Markelov foi brutalmente assassinado perto do Kremlin. Ele era conhecido por representar e defender chechenos que foram vítimas de violência e abusos por parte de militares russos. Ele participou de diversos casos que receberam enorme destaque na imprensa e na mídia. Ele também defendia jornalistas intimidados por criticar Vladimir Putin e o seu governo.

Entre seus protegidos, estava a jornalista Anna Politkovskaya. Quando foi assassinado, Markelov estava na companhia da jornalista Anastasia Baburova, que também foi morta. Pouco tempos depois, dois suspeitos foram presos, acusados de cometer o crime, Nikita Tikhonov e Yevgenia Khasis, um casal de radicais nacionalistas. Markelov tinha 34 anos, e Baburova tinha 25, quando foram mortos. Baburova foi a quarta jornalista do periódico Novaya Gazeta a ser assassinada.

Em 15 de julho de 2009, a jornalista e ativista Natalya Estemirova foi brutalmente assassinada perto de sua residência em Grózni, na Chechênia. Ela investigava inúmeros casos de sequestros, torturas, execuções extrajudiciais e toda a sorte de abusos cometidos contra civis, que eram frequentemente perpetrados por milícias pró-russas, possivelmente financiadas pelo Kremlin. As investigações subsequentes nunca foram capazes de solucionar o crime e seus assassinos nunca foram identificados. Diversos jornalistas do periódico Novaya Gazeta afirmam que um grande esquema de acobertamento fora realizado, para que a verdade nunca fosse divulgada.

Em 16 de novembro de 2009, o consultor fiscal Sergei Magnitsky morreu misteriosamente alguns dias antes de ser solto da prisão. Encarcerado sem motivo nenhum pelas autoridades em novembro de 2008, ele permaneceu preso por quase um ano, sem acusações formais ou motivos legais. Um comitê formado para investigar violações sistemáticas dos direitos humanos conduzido pelo Kremlin apurou que Magnitsky foi torturado sistematicamente ao longo de vários meses. Como consequência disso, ele desenvolveu diversos problemas de saúde, como pancreatite, cálculos biliares e uma vesícula bloqueada.

Magnitsky se tornou alvo das autoridades depois de desbaratar inúmeros casos de evasão fiscal, fraude, desvio de verbas e corrupção envolvendo integrantes da alta cúpula do estado, que estavam sendo executados e acobertados por funcionários do governo com a ajuda de agências policiais. É possível que ele tenha sido deliberadamente assassinado antes de ser solto, justamente para que não pudesse revelar a ninguém os monumentais e tempestuosos esquemas ilícitos de fraude e corrupção que havia descoberto.

Em 23 de março de 2013, o renomado magnata, político, matemático e acadêmico russo Boris Berezovsky foi encontrado morto no seu apartamento, em Berkshire, na Inglaterra. Ele estava exilado no Reino Unido desde 2003, depois de constatar que corria risco de morte se permanecesse na Rússia. Ele emigrou depois que suas diferenças e divergências com Vladimir Putin tornaram-se tão avassaladoras quanto irreconciliáveis.

Berezovsky foi fundamental para a ascensão política e social de Vladimir Putin. Ambos pertenciam ao círculo íntimo de associados de Boris Yeltsin, e sua atuação foi muito relevante na formação da base política que levou Putin ao poder; Berezovsky participou inclusive da fundação do partido político Unidade. Pouco tempos depois, Berezovsky tornou-se integrante da Assembléia Legislativa.

Berezovsky, no entanto, subestimou sua capacidade de exercer influência sobre Vladimir Putin, assim que este tornou-se presidente. O futuro ditador, aparentemente, tinha uma agenda própria a seguir. Semanas depois de Putin ser empossado como líder máximo da nação, as divergências entre ambos tornaram-se severamente ríspidas e acirradas. Putin havia proposto mudanças legislativas que gradualmente lhe dariam poderes plenipotenciários. Sem poder ou influência suficientes para mudar a direção dos acontecimentos, e profundamente descontente e ressentido com a situação, Berezovsky renunciou ao cargo que ocupava na Assembléia Legislativa, alegando — de acordo com as suas próprias palavras — que “não queria se envolver na ruína do país e na restauração de um regime autoritário”. Pouco tempo depois, o governo passou a confiscar várias empresas e ativos que eram de propriedade de Berezovsky. Em questão de algumas semanas, Putin anunciou durante uma entrevista que não iria mais tolerar críticas ao governo.

Ao mudar-se para a Inglaterra, Berezovsky, sentiu-se mais seguro para fazer críticas pontuais e contundentes a Vladimir Putin. Afirmou, inclusive, que Putin deveria ser diretamente responsabilizado pelo envenenamento e pela morte de Alexander Litvinenko, a quem Berezovsky conhecera pessoalmente. Juntamente com outros expatriados russos, ambos integraram um grupo de dissidentes que pretendia derrubar Vladimir Putin e seu governo corrupto, agindo pacificamente do exílio.

Em 23 de março de 2013, Boris Berezovsky foi encontrado morto em seu apartamento, localizado em Sunninghill. À princípio, sua morte foi considerada um suicídio. Aparentemente, Berezovsky teria se enforcado. Posteriormente, no entanto, o inquérito sobre sua morte foi reaberto pelas autoridades, e passou a ser investigado de forma mais meticulosa. Na sua certidão de óbito, a causa da morte foi revertida para “veredito aberto”. Pouco antes de Berezovsky morrer, o magnata russo teria escrito e enviado uma carta para Vladimir Putin, onde solicitava o seu perdão e pedia permissão para regressar à Rússia. Muitas pessoas — principalmente associados próximos a Berezovsky —, duvidam da autenticidade da carta, e acreditam que ela tenha sido forjada.

Em 27 de fevereiro de 2015, o político liberal russo Boris Nemtsov foi brutalmente assassinado quando estava próximo ao Kremlin. Nemtsov era conhecido por ser um crítico feroz de Vladimir Putin; embora o tivesse apoiado quando este tornou-se presidente, com o passar dos anos Nemtsov virou um fervoroso e contundente crítico do governo, conforme as políticas de Putin dilaceravam liberdades civis e individuais, ficando cada vez mais autoritárias e restritivas.

Nemtsov fora preso em diversas ocasiões por liderar protestos contra o presidente, por ele retratado como uma figura despótica e ditatorial — altamente nociva para a pátria —, que tinha como prioridades máximas perpetuar-se no poder e consolidar uma ditadura pessoal. Antes de ser assassinado, a própria mãe de Nemtsov passou a exortá-lo frequentemente para que ele se escondesse ou fugisse, por temer pela sua vida.

Posteriormente, o próprio Nemtsov passou a falar abertamente na mídia que temia pela sua vida. Além disso, ele divulgou que havia compilado um vasto dossiê contendo uma enorme lista de acusações de corrupção cometidas por Vladimir Putin e sua administração, com conteúdo exclusivo sobre a atuação russa na região da Criméia. Se isso é realmente verdade, muitas informações ocultas sobre a putinocracia seriam reveladas, o que seria suficiente para deflagrar uma tempestuosa crise política no país. A existência desse suposto relatório pode ter sido o estopim que levou seus opositores políticos a tomarem a decisão de eliminá-lo.

Um dos mais importantes políticos de oposição da Rússia pós-soviética, atualmente Boris Nemtsov é lembrado como uma das figuras mais relevantes na defesa de pautas econômicas liberais. Ele também divergia de forma aguerrida com o governo na questão da Criméia. Ao longo de sua vida, trocou diversas vezes de partido político. Quando foi assassinado, Boris Nemtsov tinha cinquenta e cinco anos de idade. Depois do assassinato, Vladimir Putin encarregou-se pessoalmente das investigações do caso, o que foi visto como algo no mínimo suspeito. Em junho de 2017, cinco chechenos foram presos acusados de cometer o crime, afirmando que haviam sido contratados para realizar o assassinato, por um valor estimado em aproximadamente duzentos e cinquenta mil dólares. Os acusados, no entanto, jamais revelaram quem os teria contratado.

Em 23 de março de 2017, Denis Voronenkov — que começou sua carreira no partido político Unidade, tornando-se posteriormente um político independente sem filiação, vindo depois disso a integrar o Partido Comunista da Federação Russa por cinco anos, antes de tornar-se novamente um político independente — foi assassinado a tiros em Kiev. Ele estava exilado na Ucrânia justamente por temer pela sua vida. Suas críticas viscerais e contundentes a Vladimir Putin sempre perturbaram o Kremlin, que tem o costume de não poupar munição contra os seus detratores. Algum tempo depois de sua morte, o ucraniano ultranacionalista Pavlo Parshov foi preso, acusado de cometer o crime. Não obstante, nenhuma evidência sólida foi fornecida contra o suspeito. De fato, é possível que o assassinato tenha sido orquestrado pelo serviço de segurança federal do governo russo, com o objetivo de eliminar o dissidente.

Na presente conjuntura, é tão trágico quanto irônico constatar que a mídia ocidental não tenha coragem de classificar Vladimir Putin por aquilo que ele realmente é, um ditador — um tirano malévolo e autoritário, que está no poder há mais de vinte anos, e pretende lá permanecer até a metade da próxima década, tendo realizado todas as manobras políticas que garantem a sua permanência definitiva no poder.

Putin só precisou apertar os parafusos certos para garantir o seu lugar de permanência como déspota vitalício da Federação Russa. O Parlamento e a Câmara dos Deputados, conhecida popularmente como Duma, são instituições completamente controladas pelo Kremlin.

Dessa maneira, sugerir e aprovar mudanças constitucionais é mais fácil do que parece. Todos os integrantes do governo buscam cumprir a mesma agenda — alguns por vontade própria, outros por medo, outros pressionados por ameaças —, a da coalizão de interesses escusos que efetivamente comanda o estado russo, que ainda mantém sua estrutura, e acima de tudo, a sua mentalidade soviética. Embora exista uma fachada de civilidade, é necessário lembrar que ela é apenas isso, uma fachada. A estrutura, o espírito e a anatomia do governo russo são de uma natureza absolutamente truculenta e despótica, o que pode ser entendido como a herança de um tirânico, nefasto e agressivo stalinismo que nunca desapareceu, mas foi apenas suavizado por um frágil e demagógico verniz “democrático”.

Vladimir Putin trabalha efetivamente para a consolidação de uma ditadura pessoal vitalícia. No poder há vinte anos, o seu legado mais palpável é o de uma extensa e mórbida trilha de cadáveres, que nunca serão apropriadamente contabilizados. As expressões “Putinismo” e “Estado Mafioso” — esta última criada por Alexander Litvinenko — são frequentemente empregadas para descrever a condição atual da Rússia, que tem na linha de frente o homem de estado Vladimir Putin, líder de uma autocracia cruel, violenta e assassina, que elimina de forma implacável todos aqueles que ficam em seu caminho.

Como ditador da Federação Russa, a principal função de Vladimir Putin é garantir a manutenção do status quo vigente; ou seja, seu trabalho é permitir que a máfia dos oligarcas continue reinando suprema e soberana por toda a nação, com plena liberdade para gerenciar todos os seus negócios da maneira que bem entender. Do topo da pirâmide da hierarquia, Vladimir Putin aproveita a vista, e acumula vasto poder e patrimônio.

Como o testa de ferro de uma das mais implacáveis, cruéis e poderosas organizações criminosas que existem hoje no mundo — a coalizão de máfias organizadas coletivamente conhecida como governo russo —, ele busca se perpetuar no poder indefinidamente. Para isso, ele atende a todas as demandas e necessidades de quem o colocou na posição de poder que ele ocupa hoje: a de ditador assassino e autoritário, a serviço do poder absoluto.

Por Wagner Hertzog

 

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