Quem foi Carlos Lamarca, comunista executado pelo regime militar?

Quem foi Carlos Lamarca

Assim como ocorreria com Carlos Marighella, Carlos Lamarca transformou-se em um ícone da esquerda nacional

Ícone da esquerda brasileira revolucionáriaCarlos Lamarca foi um integrante do grupo guerrilheiro conhecido como Vanguarda Popular Revolucionária — que, juntamente com muitos outros que atuavam em território nacional, e sem recursos próprios, eram declaradamente financiados por Cuba e pela União Soviética, como Ação Libertadora Nacional, COLINA e Organização Revolucionária Marxista Política Operária.

Oficial do exército brasileiro que desertou para juntar-se à revolução, Carlos Lamarca nasceu a 23 de outubro de 1937, no Rio de Janeiro, e foi morto durante a operação Pajuçara, realizada no interior da Bahia, a 17 de setembro de 1971, aos 33 anos de idade, juntamente com um companheiro de guerrilha.

Não se sabe com exatidão quando Lamarca tornou-se simpatizante do comunismo, tampouco por quais razões. Não obstante, sua trajetória como guerrilheiro foi breve. Desertando do exército brasileiro no final de janeiro de 1969, juntamente com alguns companheiros de farda, Lamarca levou consigo armas e munições roubadas do regimento onde estava aquartelado.

A partir desse momento, Lamarca passou a viver na clandestinidade, praticando com seus colegas militantes toda a sorte de atos ilícitos, principalmente assaltos a banco, para promover a luta armada e financiar os seus integrantes.

Enquanto vivia na obscuridade em São Paulo, Carlos Lamarca conheceu Iara Iavelberg, uma garota de aproximadamente vinte e quatro anos de idade, que apesar de pertencer a burguesia judaica paulistana, era uma socialista e inveterada militante do MR-8.

Pouco tempo depois, diversos membros da VPR foram encarcerados em uma operação de inteligência esquadrinhada pelos militares, encarregados de combater a esquerda revolucionária. Com o seu contingente impreterivelmente prejudicado, o movimento de Lamarca se uniu a outros dois grupos de guerrilha, a COLINA e a União Operária, em uma coalizão que ficou conhecida como VAR-Palmares. Então o grupo se retirou para uma região desolada no sul do estado de São Paulo, conhecido como Vale do Ribeira, para dedicarem-se exclusivamente a treinamentos com finalidade de guerrilha.

Não obstante, a inteligência militar, sempre no encalço de Lamarca, eventualmente descobriu o seu paradeiro, e uma grande operação foi executada com a finalidade de capturar todos os integrantes da célula revolucionária. Carlos Lamarca, nessa ocasião, conseguiu evadir-se com um pequeno grupo de guerrilheiros, não sem antes travar um ardoroso combate contra os militares encarregados de capturá-los.

Logo, Lamarca se tornaria o homem mais procurado do país. Marighella, o prévio detentor  do título, fora executado em uma emboscada, que ocorreu em 4 de novembro de 1969. O próximo passo de Lamarca, no entanto, foi o mais ousado de sua carreira criminosa — o terrorista comunista liderou o sequestro do diplomata suíço Giovanni Bucher, que ocorreu a 7 de dezembro de 1970.

Diplomatas eram sequestrados com relativa frequência pelos terroristas comunistas, para serem usados como moeda de troca por prisioneiros políticos. O sequestro de Giovanni Bucher, no entanto, foi o último a ocorrer durante o regime militar. Graças ao seu temperamento cordial, afável e inteligente, no entanto, Bucher se deu muito bem com os seus sequestradores. Tendo conquistado a simpatia de Lamarca — que o defendeu quando os demais membros da organização terrorista decidiram matá-lo —, o embaixador suíço foi libertado depois de quase quarenta dias de cativeiro, sem maiores incidentes. Os militantes exigiram, em troca do embaixador, a libertação de setenta presos políticos; demanda, esta, que fora atendida pelo governo militar. No entanto, da lista apresentada, treze prisioneiros foram negados, sendo substituídos por outros.

A esta altura, os militares queriam eliminar Carlos Lamarca a qualquer custo. Tendo se desvinculado de sua organização para juntar-se à MR-8 — possivelmente tendo intenção de ficar mais próximo de sua namorada Iara —, Lamarca foi para o Rio de Janeiro, onde permaneceu pouco tempo, antes de partir para o interior da Bahia, com a possível pretensão de lá instaurar um foco de guerrilha.

Traçando sua trajetória desde o Rio, os militares eventualmente elaboraram uma operação, chamada Pajuçara — liderada pelo major Nílton Cerqueira —, com o objetivo de capturar o guerrilheiro revolucionário. Quando as forças militares e policiais combinadas localizaram o acampamento onde Lamarca estava, abriram fogo contra seus ocupantes. Mas Lamarca conseguiu fugir, acompanhado por um colega, Zeca Barreto. Ambos andaram aproximadamente nove quilômetros pelo sertão até chegarem a um povoado vizinho, mas com medo de serem reconhecidos, novamente se embrenharam pelas planícies desérticas. Desnutrido e doente, Lamarca eventualmente teve que ser carregado pelo seu colega.

Apesar das condições precárias que enfrentavam — sofrendo privações, e não tendo meios de locomoção —, ambos decidiram seguir viagem, andando trezentos quilômetros até Ibipetum, um diminuto vilarejo no interior do estado da Bahia, localizado literalmente no meio do nada, com uma população de apenas algumas centenas de habitantes.

Assim que um residente tomou conhecimento da presença de itinerantes estranhos ao povoado, tratou de informar as autoridades locais, que não demoraram em contatar os militares encarregados de capturá-los. Aparentemente, Barreto e Lamarca foram surpreendidos quando, completamente exauridos, estavam descansando debaixo de uma árvore. Ambos foram sumariamente fuzilados ao tentarem escapar. De lá, seus corpos foram transportados até a base aérea de Salvador, onde foram fotografados.

A morte de Lamarca foi seguida por um comunicado oficial, que exortava os meios de comunicação a terem certa cautela e sutileza ao informarem a morte do guerrilheiro revolucionário, para que este não fosse convertido em um mártir ou em um mito do movimento comunista.

Não obstante — assim como ocorreria com Carlos Marighella —, infelizmente Carlos Lamarca transformou-se em um ícone da esquerda nacional.

A eliminação sumária de terroristas comunistas perigosos e subversivos como Carlos Lamarca foi fundamental para manter a ordem e suplantar a ameaça revolucionária que assombrava o Brasil na época, com grupos guerrilheiros que pretendiam transformar o país em uma versão sul-americana da União Soviética. Com as operações policiais e militares que tentaram ativamente coibir atentados, sequestros, assaltos a banco e outras atividades de guerrilha que aterrorizavam diversas regiões do Brasil, a supressão da esquerda revolucionária logrou êxito no auge do regime militar, embora a esquerda cultural tenha aproveitado o período para conquistar espaços que hoje transformaram-se em redutos onipotentes da hegemonia progressista.

Em 2007, Carlos Lamarca foi reabilitado e promovido ao posto de coronel do exército. Seus familiares foram reconhecidos como perseguidos políticos. Não obstante, oito anos depois, em 2015, essas medidas — juntamente com o pagamento de uma pensão que fora estabelecida para sua família —, foram anuladas pela Justiça Federal da Comarca do Rio de Janeiro, em decisão de primeira instância.

Por: Wagner Hertzog

 

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