Saiba quem foi Salazar e entenda o salazarismo

Saiba quem foi Salazar e entenda o salazarismo

A imagem é licenciada sob by Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian CC BY-NC-ND 2.0

A verdadeira história de Salazar, ditador de Portugal, e alguns aspectos do salazarismo

Antônio de Oliveria Salazar foi o ditadorbom” que governou Portugal de 1932 a 1968, como Primeiro-Ministro. Seu regime — com frequência classificado como uma permuta entre fascista e corporativista. Assim como o regime varguista, também foi chamado de Estado Novo.

Salazar nasceu em 28 de abril de 1889 — oito dias depois de Adolf Hitler — em uma humilde família. Quando tinha por volta de vinte anos de idade, a Revolução de 1910 derrubou a monarquia para instituir em seu lugar a Primeira República Portuguesa, que se revelaria, talvez, como um dos períodos mais agitados da história do país; em apenas dezesseis anos, a nascente República teve nove presidentes, mais de quarenta ministros, e uma sucessão de rebeliões. Além de execuções arbitrárias e golpes.

Ou seja, tais eventos provaram ser muito mais um período de extrema desordem e caos do que governos de fato sérios e coesos. Com efeito, esse período anárquico seria encerrado apenas com o estabelecimento de uma ditadura militar em 1926.

Formação acadêmica

Astuto e capaz — pouco depois do começo da República —, Salazar foi estudar direito na Universidade de Coimbra, onde graduou-se em ciências econômicas. Distinto, Salazar se destacava por sua aplicação e notas altas. Depois de se formar com louvor em 1914, ele se tornou professor adjunto de economia política na Faculdade de Direito. Em 1917, tornou-se regente da cadeira de economia política e finanças, tendo ganho seu doutorado em 1918. Durante esse período, Salazar começou a se interessar por política e esteve em debates e quentes discussões no Centro Acadêmico de Democracia Cristã.

Os tumultos políticos do período, por óbvio, tiveram um elevado impacto na segurança e no custo de vida do povo português. Os jovens passaram a se interessar por política, e por isso tornaram-se politizados. Salazar não foi exceção. Um produto do seu tempo, como muitos jovens ele pensava em formas e maneiras pelas quais Portugal poderia conquistar progresso, melhoria e calma. E seus anseios, movidos pelas crises e incertezas políticas, o levaram a interessar-se cada vez mais por política.

Salazar foi um católico fervoroso

Bastante católico, Salazar deplorava a rejeição ao clero e o forte secularismo do liberalismo europeu. Do mesmo modo, negava com força os ideais iluministas. Assim, com o fim de recriar o glorioso passado do seu país, Salazar sentia-se motivado a entrar na política.

Em suma, era trilhando esse caminho que Salazar via como melhor opção para retomar a glória de Portugal.

Não obstante desprezar a República, Salazar não era a favor da monarquia; para ele, os monarquistas do seu tempo cometiam o pecado de atacar a Igreja Católica, e afastarem-se dos ensinos episcopais do Papa Leão XIII, por quem Salazar nutria profunda admiração e respeito. Mais ou menos por volta dessa época, Salazar começou a colaborar no periódico O Imparcial, que pertencia ao seu amigo Manuel Gonçalves Cerejeira, que mais tarde se tornaria cardeal da igreja católica, e serviria como Patriarca da Arquidiocese de Lisboa por mais de quarenta anos, de 1929 a 1971.

Relutância em entrar na política

Por volta de 1921, então 32 anos de idade, Salazar começou a adquirir fama e renome nos círculos políticos de Lisboa. Como resultado, tentaram lançá-lo candidato ao Parlamento. Com certa ojeriza pela política, Salazar se recusou a fazê-lo. Ele chegou a ir uma vez até a câmara, mas nunca mais voltou.

Não obstante, Salazar parecia destinado à ingressar na política, mas isso ocorreu de forma mais sutil e indireta. Depois do golpe de Estado que instituiu uma ditadura militar — que colocaria fim à caótica instabilidade da jovem República —, Salazar trabalhou para o governo como Ministro das Finanças. Apesar de pouco confortável com o meio, Salazar rejeitou inúmeras promoções, alegando obrigações para com os seus pais idosos e vontade de dedicar-se à objetivos acadêmicos.

O cenário, no entanto, logo mudaria de forma radical a favor de Salazar. Naquela época, as enormes dívidas públicas de Portugal ameaçavam levar o país ao completo colapso, sob o risco de quebra. O governo tentou até mesmo obter um empréstimo do Banco Barings, tendo a Liga das Nações como mediadora.

De todo modo, depois que Oscar Fragoso Carmona se tornou o presidente de Portugal, Salazar foi convencido a trabalhar pela reforma da Pátria como Ministro das Finanças, com a intenção de salvar a nação da iminente quebra. Nacionalista contumaz, Salazar aceitou o cargo. No entanto, sob uma condição. Ele queria usufruir de plenos poderes para exigir contenção de gastos em todos os setores do governo, não apenas no seu. Carmona concordou em aceitar a exigência. Começava aí a ascensão de Salazar na política do seu país; de forma um tanto quanto sutil, ao mesmo tempo que apresentava astúcia para negociar a aquisição de poderes.

Salazar – Primeiro-Ministro de Portugal

Não demorou muito tempo para Salazar arrumar as finanças e ajeitar a casa, o que fez com que ele alçasse de forma rápida no sistema do anfiteatro político. Dedicado e hábil, Salazar ganhou fama entre as figuras mais distintas da política portuguesa. Logo, vieram as promoções. Em julho de 1932, Carmona promoveu Salazar a Primeiro-Ministro — o centésimo na história de Portugal.

Portanto, Salazar deixava de ser apenas uma figura dos bastidores, para ser agente no cenário político português. A partir de então, ele deixaria de ser uma figura auxiliar, para se tornar o mais notável colosso político na história moderna do país.

A ditadura militar definida em 1926 agiu de forma brutal para reprimir e censurar qualquer oposição ao regime. Mesmo entre os conservadores e os moderados, havia cisão e diferenças expostas no anfiteatro político, muitas vezes de forma agressiva e cruenta. Logo, iniciou-se uma disputa odiosa entre os tradicionalistas católicos ortodoxos — dos quais Salazar poderia ser considerado integrante — e os republicanos conservadores, ansiosos em abalar o Regime e estabelecer sua própria coalizão de governo. Estes últimos tentaram tomar o poder em infelizes golpes de estado, que nunca foram fortes ou coesos o suficiente para lograr êxito.

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Primeiro-ministro ganha poder

A medida que Salazar agia para reprimir seus opositores, mais força ele adquiria no cenário político; como resultado, seu poder crescia. Em certo ponto, apesar de nunca ter sido monarquista, Salazar passou a usufruir do apoio de Manuel II, o deposto e exilado rei de Portugal.

Conforme se tornava um poder paralelo na ditadura militar, Salazar fazia de tudo para ampliar o escopo de seu prestígio político. Aos poucos, ele adquiriu cada vez mais poder — à princípio de maneira informal —, sendo que depois se tornaria o líder político supremo da nação. Embora de inicio brando para com o Movimento Sindicalista Nacional, Salazar em pouco tempo passou a reprimi-los por temer que através deles o Nacional-Socialismo pudesse ganhar destaque e fama em Portugal.

O salazarismo

Gradualmente, Salazar passou a conquistar enorme prestígio e popularidade entre os portugueses, que o viam como um servidor público forte, aguerrido, sagaz e cioso pelo bem-estar da nação. De modesto e recatado Ministro das Finanças, Salazar passou a cultivar a imagem de um patriota humilde e zeloso, porém severo e de convicções firmes.

Logo, em alguns poucos anos, sua gestão passou a ter o respeito e a crédito dos portugueses. Salazar pegou uma nação fraca, caída e devastada pela corrupção dos governos anteriores, e a reformou por completo. Ainda que Portugal não tenha se tornado em um utópico e glorioso paraíso perfeito, os resultados soberbos de sua gestão falavam por si só.

Nos primeiros anos sob sua chefia, Portugal se tornou uma nova nação, cuja economia se fortalecia a olhos vistos, e cuja gradual aquisição de solidez fortalecia a confiança do povo na esperança de um futuro promissor. Salazar chegou inclusive a ser o motivo de um elogioso artigo da revista americana Life, publicado em julho de 1940, que falava como o ministro português havia encontrado uma nação “atrozmente governada, falida, esquálida, saturada de doenças e pobreza“, mas a reformara por completo, deixando-a diferente.

Ademais, o fato de ter amplo apoio do exilado rei Manuel II fez Salazar ganhar enorme respeito e apoio dos monarquistas, apesar de Salazar nunca ter sido um.

Além disso, Salazar foi muito inteligente em usurpar aos poucos diversas funções do governo, que aos poucos fariam ele se tornar o soberano líder máximo de toda nação, executando manobras políticas discretas, que o deixariam com poderes sem que ninguém percebesse. A doutrina social católica teria um papel vital em suas políticas governamentais, que seriam voltadas para o catolicismo como nenhuma outra nação na Europa contemporânea.

O salazarismo, o nazismo e o fascismo

Na prática, Salazar nunca tomou o poder de assalto, tampouco se insurgiu pela força. Ou seja, sua ascensão se deu de forma gradual e discreta — quase nas sombras. Consolidada com o arranjo de uma nova Constituição, que serviria de base para o que ficaria conhecido como Estado Novo, nome que ficaria associada ao regime salazarista. Enfim, ao contrário de Adolf Hitler ou Benito Mussolini, Salazar não era um fascista stricto sensu; o que significa que ele não pretendia efetuar um modelo de estado de partido único.

Ao mesmo tempo que afirmava ser avesso a partidos políticos, fundaria um partido pouco tempo depois, a União Nacional, que Salazar iria classificar como um anti-partido, ou a antítese de um partido. Um tanto contraditório, Salazar acabou fazendo exatamente o que disse que não iria fazer. Afinal, Portugal acabou se tornando um regime de partido único.

As diferenças entre o salazarismo o fascismo e o nazismo

Não obstante, é verdade que existiam diferenças estruturais e políticas enormes entre o Regime de Salazar e os regimes fascistas clássicos, como a Itália de Benito Mussolini e a Espanha de Francisco Franco. Na nação de Salazar, não havia coação para filiação ao partido. Nem de funcionários públicos, políticos, diplomatas e embaixadores e muito menos cidadãos comuns. Para Salazar, a União Nacional deveria funcionar como uma instituição responsável por proteger e manter a ordem social vigente, debaixo de uma base estritamente conservadora.

Em síntese, não deveria ser, jamais, um partido de vanguarda, mas antes, deveria funcionar como um baluarte, sempre vigilante e disposto a rechaçar quaisquer movimentos liberais, comunistas, socialistas ou anarquistas que ameaçassem a ordem social vigente.

Apesar do caráter à primeira vista fascista do seu regime, Salazar odiava com vigor tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano — que classificava como sendo uma espécie de “cesarismo pagão“. Uma vez que considerava repulsivos por serem regimes totalitários que não reconheciam limites legais, morais, éticos ou legais para as suas ações.

Ditadura salazarista

Não obstante, a nova Constituição promulgada por Salazar pretendia resguardar os interesses da população através de plataformas corporativas, que defenderiam coletivamente os interesses dos vários grupos que compõem a sociedade. O Estado Novo era, na essência, um estado corporativista, de matriz conservadora e nacionalista. Salazar, não pretendia expandir os seus poderes, mas se manter como uma espécie de guardião moral da ordem social vigente.

Todavia, à despeito de quaisquer definições, na prática o Estado Novo salazarista era uma ditadura, e Salazar tinha uma polícia política, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado ou PIDE — que atuava discretamente — com o objetivo de reprimir os inimigos e opositores políticos do regime.

Para Salazar, sua omissão, covardia ou negligencia, faria os inimigos do Estado Novo se unirem a fim de subverter o regime e deflagrar uma Revolução. Em virtude disso, Salazar sofreu uma tentativa de assassinato, orquestrada por seus inimigos.

Anarco-sindicalista tenta assassinar Salazar

A tentativa de assassinato de Salazar ocorreu em 4 de julho de 1937. A ação foi feita por Emídio Santana, um anarco-sindicalista e líder do Sindicato Nacional dos Metalúrgicos. Depois de descobrir qual era a rotina e a rota do governante português, o terrorista jogou em Salazar uma bomba que estava dentro de uma mala, assim que o viu sair de sua limusine para atender uma missa em uma capela localizada na avenida Barbosa du Bocage. Todavia, o autor do atentado errou o alvo. Salazar não se feriu, mas seu chofer ficou surdo com a explosão da bomba. Depois de perceber que havia falhado, Emídio Santana fugiu para o Reino Unido. Porém foi preso e após sua deportação para Portugal, recebeu uma sentença de 16 anos de prisão.

Portugal de Salazar e a II Guerra Mundial

Durante a Guerra Civil Espanhola, indiretamente Salazar apoiou Franco contra os comunistas. Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, Salazar seguiu uma política neutra no conflito, algo já institucionalizado em documentos oficiais do regime. A neutralidade de Portugal foi de extrema importância para influenciar a Espanha a se manter igualmente neutra. Apesar de Salazar oferecer discretamente auxílio aos aliados na luta contra o eixo.

Além do mais, como o jornalista americano Henry Taylor comentou, Salazar previu com astúcia como seria a conclusão do conflito, algo que ninguém mais havia feito, com o nível de precisão do mandatário português.

De acordo com Salazar, os britânicos iriam sofrer mas não derrotados. Também previu a entrada dos Estados Unidos na guerra e que os aliados iriam ganhar. Uma vitória do III Reich, na opinião de Salazar, “seria desastroso para o governo da lei, e para países periféricos e agrícolas, como Portugal.” A opinião de Salazar sobre a Alemanha Nazista só não era negativa ao extremo porque ele via o III Reich como uma resistência ao comunismo na Europa.

Para um católico ultra-ortodoxo como Salazar, tudo o que era de matriz pagã era imoral, repulsivo, desagradável, deplorável, degradante e indesejável. Nesse sentido, Salazar escreveu diversos livros — dentre os quais os mais notórios são Como se Levanta um Estado Como se Reergue um Estado —, nos quais teceu pesadas críticas ao modelo nazista, aos seus alicerces teóricos e às suas aspirações ideológicas.

Em suma, tendo liderado um governo cujo modelo político é relativamente difícil de descrever, o historiador americano Stanley Payne afirmou que o regime salazarista poderia ser descrito como uma espécie de “liberalismo corporativo autoritário“.

Reformas políticas

O regime conseguiu manter-se ileso por quase 40 anos. Como a revista Life publicou em um artigo de 1940 — além de descrevê-lo como um governante “benevolente” —, o artigo afirmava que “Salazar tomou a dianteira na ditadura por solicitação do exército e a mantém por vontade popular“. Salazar era um nacionalista que desejava restaurar a ordem em seu país, para dar um fim à anarquia, à confusão, os conflitos sociais e as agitações políticas que tornaram-se comuns com o começo do regime republicano.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Salazar fez uma série de reformas que tinham por objetivo restaurar as liberdades civis, que haviam sido anuladas também por conta da guerra civil espanhola. Assim, anistia a presos e dissidentes políticos, eleições parlamentares, restauração da liberdade de imprensa, atenuação da repressão do estado policial e direito de habeas corpus foram integrados ao regime. Até o Partido Comunista Português passou a usufruir de liberdade de atuação. No entanto, a expansão de sua ação política — aliada a atividades subversivas — fez o governo cancelar algumas dessas liberdades em 1948. Porém, com a eclosão da Guerra Fria, o regime salazarista se tornou novamente autoritário.

O governo de Antônio de Oliveria Salazar e sua morte

Por quarenta anos, Salazar governou uma nação pequena, gerida com relativa competência e sabedoria. Desde que começou sua carreira política como Ministro das Finanças, Salazar tirou Portugal da falência, o que permitiu expandir o crédito do país nos mercados estrangeiros, e a dívida externa quitada. Portugal também foi protegido da subversão comunista — tornando-se uma pequena, mas segura fortaleza —, livre da perversa influência da União Soviética. Por outro lado, Portugal continuou um país ainda pobre, iletrado e atrasado, se comparado aos demais países europeus.

Salazar governou Portugal de forma soberana e segura até 1968, quando sofreu um derrame. Ele teria batido a cabeça depois de cair de uma cadeira, embora alguns afirmem que ele teria caído no banheiro enquanto tomava banho.

Deste modo, incapaz de governar, ele foi aos poucos removido do poder, sucedido por Marcelo Caetano. Salazar, no entanto, não fora informado disso. Nos seus momentos de lucidez, todas as pessoas próximas a ele o faziam acreditar que ele ainda governava o país. Salazar veio a falecer em 27 de julho de 1970, aos 81 anos. Centenas de milhares de pessoas foram ao seu funeral.

Portugal após o regime de Salazar

Como qualquer regime personalista, o Estado Novo português, sem Salazar, não foi capaz de durar por muito tempo. O regime caiu com a histórica Revolução dos Cravos, de 1974, que formou um regime democrático no país.

Por fim, infelizmente, com o passar dos anos, Portugal — assim como muitos outros países europeus — inclinou-se cada vez mais para a esquerda.

Por Wagner Hertzog

 

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